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  • A Dupla Crise Brasileira

    A Dupla Crise Brasileira

    O Coronavírus trouxe diversas implicações à nossa forma de viver e no modo como a sociedade funciona. A evolução do número de óbitos, as medidas restritivas (e infelizmente necessárias), os estabelecimentos comerciais fechados, o desespero do pequeno empresário e a quantidade de desempregados são apenas algumas das implicações que podem ser vistas a olho nu.

    O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou hoje, dia 28 de maio de 2020 que a taxa de desemprego subiu¹ para 12,6% no trimestre, o que significa que 12,8 milhões de pessoas em idade adulta, aptas ao trabalho, estão sem emprego. Da mesma forma, o CAGED² (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgado pelo Ministério da Economia informou que no último mês foram feitas 598.596 admissões e em contrapartida, foram feitas 1.459.099 demissões, o que totaliza um saldo negativo de 860.503 postos de trabalho. Em comparação, em Abril de 2019 o saldo foi positivo de 129.601 novos postos de trabalho, o que implica em uma variação (negativa) de cerca de um milhão de vagas de trabalho.

    As piores projeções até o momento preveem algo em torno de quarenta milhões de desempregados. Como se não bastasse, estima-se, ainda para 2020, uma retração do PIB (produto interno bruto) de algo entre – 4,5% a -5,9% ³.

    Se voltarmos ao final de 2019, quando diversos setores da economia estavam em êxtase com a aprovação da reforma da previdência, que garantia ao País uma economia de algo em torno de 800 a 850 bilhões de reais ao longo dos próximos dez anos, além de abrir as portas (indiretamente) para uma série de outras importantes medidas de austeridade, como as privatizações, tudo indicava a volta do crescimento, a luz no final do túnel, e nesse embalo, jamais se imaginaria a extensão do dano que seria causado por um novo vírus, descoberto na China em dezembro de 2019.

    A sociedade e a economia global sofrem neste momento, não há dúvidas. Por aqui infelizmente a situação é um pouco pior. Já somos o país nº 1 em quantidade de infectados por dia. Somos o nº 2º em quantidade de óbitos, e nos aproximamos rapidamente dos Estados Unidos, país que ontem, dia 27, chegou à marca de 100.000 fatalidades. Já se foram os dias em que falávamos, em choque, como a situação estava descontrolada na Espanha ou na Itália, países que hoje possuem respectivamente 237 mil e 231 mil infectados, enquanto em terras brasileiras o número é 420 mil. Esse último número, sem falar, é claro, na quantidade de subnotificações ou mortes por “síndrome respiratória aguda” que não se enquadram nas estatísticas oficiais de mortes por COVID-19 do Ministério da Saúde.

    A nossa política desesperada e sem planejamento prega a reabertura imediata do comércio, a volta da economia. Sim, as pessoas precisam trabalhar, gerar renda e pagar suas contas, isso não se discute. Também não se discute como é cômodo para alguns pregar o isolamento, quando estão com as contas pagas, a renda garantida e os investimentos lhes rendendo belos frutos (mais sobre isso nos próximos dias). De qualquer forma, faltou estratégia, planejamento e gerência.

    Os indicadores são claros. O dólar beirou aos R$ 6,00, e apesar da redução da cotação nos últimos dias, as projeções dos analistas em médio prazo ainda são pessimistas para o Real. Como se não bastasse, um fato ocorrido no final da semana passada não trouxe a repercussão que deveria. No último domingo (24) o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou que o país não aceitará nenhum brasileiro e nenhum estrangeiro que tenha passado pelo Brasil nos últimos 14 dias (vale dizer, o prazo de duração do ciclo de vida do COVID-19). Não que sejamos especiais, o “ban” serve para mais de trinta países. Mas aqui, novamente, a situação traz implicações piores.

    Na qualidade de país exportador de matéria prima, sendo os Estados Unidos um dos nossos principais mercados, a medida impacta demasiadamente na economia. Ninguém (leia-se Estados Unidos e todos aqueles países que o seguem) quer comprar produtos de um país que está claramente sem condições de administrar seus doentes e sem quaisquer condições aptas à contenção do vírus. Ninguém quer importar café, arroz, soja, gado ou qualquer outro produto de um país que cedeu prematuramente às pressões e agora paga, em galopes de mil óbitos por dia (e subindo), o preço de tal fraqueza, ignorância ou simples descaso (principalmente com as regiões mais pobres do país).

    A crise das mortes é uma. É dura, fria e imediata. A crise financeira, da qual só conseguimos ver a ponta do iceberg, só está começando e perdurará por longos anos.

    [Este texto é uma opinião do Autor]

    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/27821-desemprego-atinge-12-6-no-trimestre-ate-abril-com-queda-recorde-na-ocupacao

    http://trabalho.gov.br/noticias/7409-queda-nas-admissoes-influencia-saldo-de-empregos-formais-do-caged-ate-abril-de-2020

    https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/13/governo-revisa-previsao-oficial-de-pib-e-preve-queda-de-47percent-em-2020.ghtml

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